O que acontece no corpo de um cachorro
O ouvido de um cachorro é muito mais sensível que o nosso. Enquanto o ser humano percebe sons até cerca de 20 mil hertz, os cães chegam a captar frequências bem mais altas e distinguem ruídos a distâncias que nem imaginamos. Um estouro que para nós é só barulho forte, para ele pode ser uma explosão dentro da própria cabeça.
Quando o primeiro estampido ecoa, o organismo do animal reage como se houvesse perigo mortal. O cérebro dispara o alarme de luta ou fuga, as glândulas liberam adrenalina e cortisol, o coração acelera, a respiração fica ofegante e os músculos se contraem. Em pouco tempo, o cachorro pode estar tremendo, babando, urinando sem controle, tentando cavar o chão ou se jogar contra portas e janelas.
Para um animal jovem e saudável, isso já é sofrimento intenso. Para um animal idoso, cardiopata, com problemas respiratórios ou com algum quadro de ansiedade, o risco é maior. O estresse extremo sobrecarrega o coração, e há registros de veterinários que atendem, depois de noites com muitos fogos, animais com arritmias, crises de pânico, colapso e até morte súbita. Não é exagero de quem ama bicho: é consequência do que o medo faz com um corpo que não entende o que está acontecendo.
O cachorro não sabe que é comemoração
Para a gente, o foguete é sinal de festa. Para o cachorro, não existe festa, existe apenas um estrondo imprevisível, vindo de lugar nenhum, sem aviso e sem explicação. Ele não consegue ligar o barulho a um candidato que ganhou, a um time que marcou gol ou a um ano que virou. Não há como explicar, tranquilizar com palavras ou combinar “daqui a pouco passa”.
Essa imprevisibilidade é o que mais machuca. Um som alto que se repete em horário conhecido, o animal até aprende a suportar. Já o estouro aleatório, em qualquer hora, de qualquer direção, mantém o corpo em alerta máximo, sem chance de descanso.
Fugas, atropelamentos e tragédias que vêm junto
O medo não termina no susto. Cachorros apavorados fogem. Pulam muros, rasgam telas, arrombam portões e correm sem rumo pela rua. Muitos são atropelados, outros se perdem e nunca voltam para casa. Abrigos e protetores independentes relatam aumento de animais recolhidos e de buscas desesperadas em dias de muito foguetório.
Há também os que se machucam dentro de casa: quebram dentes tentando morder portas, cortam as patas em vidros, desenvolvem lesões por tentarem se esconder em espaços apertados. E existem os efeitos que aparecem dias depois, como perda de apetite, apatia, tremores a cada barulho e medo permanente de qualquer som parecido.
Não são só os cachorros
Se o argumento fosse só sobre cães, já bastaria. Mas ele vai muito além.
Gatos se escondem, ficam dias sem comer e podem fugir para nunca mais voltar. Cavalos entram em pânico, se debatem em baias, quebram cercas e se ferem gravemente. Pássaros, tanto os de gaiola quanto os silvestres, podem desorientar, bater contra obstáculos ou abandonar ninhos. Animais de produção, como vacas e galinhas, também sofrem. Em áreas urbanas com praças e parques, a fauna que vive nas árvores sente tudo.
E há pessoas. Muitas pessoas.
Crianças autistas, para quem o excesso sensorial pode causar crises severas. Bebês que acordam aterrorizados no meio da noite. Idosos acamados ou com problemas cardíacos. Pessoas com transtorno de estresse pós-traumático, como veteranos de guerra, vítimas de violência armada e quem já sobreviveu a assaltos, para quem o estampido pode reviver o pior momento da vida. Pessoas em tratamento de saúde mental, que dependem de noites tranquilas para se manter estáveis.
Quem solta o foguete raramente enxerga essa plateia silenciosa. Ela está do outro lado da parede, tremendo, sem poder dizer “pare”.
O argumento do “é só um minutinho”
Quase sempre a defesa é a mesma: “É só um instante”, “é só uma vez por ano”, “é só alegria”. O problema é que o tempo do barulho para quem solta não é o tempo do medo para quem escuta.
Para o cachorro, um minuto de explosões pode virar uma noite inteira de pânico, porque o corpo demora a baixar a adrenalina. Para o animal que fugiu, esse minuto pode ser o último dentro de casa. Para o idoso com o coração frágil, pode ser o susto que faltava. Quem comemora mede a duração pelo prazer. Quem sofre mede pelas consequências.
E existe outro ponto: a alegria que depende de assustar quem não pode se defender não é uma alegria muito generosa. Dá para comemorar vitória, reeleição, derrota do adversário ou qualquer coisa sem transformar o bairro em zona de guerra.
A política não precisa de estampido
Época de eleição é sempre um momento carregado. As pessoas estão tensas, divididas e emotivas. Na hora do resultado, tem quem queira extravasar, e isso é humano. Mas há uma diferença entre expressar emoção e impor barulho a quem não tem nada a ver com a história.
O mesmo vizinho que votou do outro lado, o cachorro que não vota, a criança que não entende e o idoso que só quer dormir vão ouvir tudo igual. O foguete não distingue apoiador de adversário. Atinge todos, e quem mais sofre é justamente quem está fora da disputa.
Existem maneiras de comemorar que não machucam: bandeiras, música em volume razoável, carreata com buzina moderada, encontro com amigos, um brinde, um grito de alegria que se perde na noite. Nenhuma delas deixa um animal convulsionando embaixo da cama.
O que diz a lei, e por que ela existe
Diversas cidades brasileiras já aprovaram leis que proíbem ou restringem fogos de artifício com estampido, justamente por causa do impacto sobre animais, pessoas com autismo, idosos e bebês. Em alguns lugares, é permitido apenas o uso de fogos de efeito visual e baixo ruído, que mantêm o espetáculo de luz sem o trovão. Há multas previstas, e denúncias podem ser feitas aos órgãos municipais e à polícia.
A lei é importante, mas não deveria ser o motivo principal. Ninguém precisa de multa para ter consideração. A legislação existe porque, durante muito tempo, faltou empatia suficiente para resolver o problema sozinha.
O que quem tem animal pode fazer
Para quem convive com bichos, algumas atitudes ajudam a atravessar a noite com menos sofrimento:
- Mantenha o animal dentro de casa, com portas, janelas e portões bem fechados, e confira se a identificação na coleira está legível. Microchip e plaquinha com telefone atualizado aumentam muito a chance de reencontro caso ele fuja.
- Crie um canto seguro, de preferência em um cômodo interno, longe de janelas, com cobertor, caminha e algo que tenha o seu cheiro. Cortinas fechadas e uma música ou televisão em volume baixo ajudam a abafar o som.
- Fique por perto. A presença de quem ele confia faz diferença, e não há problema em confortar: carinho não “reforça” o medo, ele reduz o sofrimento.
- Converse com o veterinário com antecedência. Existem alternativas, como orientação comportamental, feromônios e, em alguns casos, medicação prescrita. Nunca medique por conta própria, porque remédios de uso humano podem ser perigosos para os animais.
- Evite passeios em horários de risco. Leve o cachorro para fazer as necessidades mais cedo e, se possível, antes que a comemoração comece.
- Se o seu animal é idoso ou tem problema cardíaco, avise o veterinário e tenha o contato de uma clínica de emergência à mão.
O que quem comemora pode fazer
Ser mais humano muitas vezes começa com um gesto simples de perguntar antes de agir. Antes de acender qualquer coisa, vale pensar em quem mora ao redor. Há bebê, idoso, animal, alguém doente, alguém que trabalha cedo, alguém que vive em sofrimento silencioso?
Escolher outro jeito de celebrar não diminui a vitória nem tira a graça. Pelo contrário, mostra que a alegria pode ser grande sem ser violenta. E se o vizinho pedir para você parar, ouvir esse pedido não é perder, é um gesto de respeito que custa muito pouco.
Se você presenciar fogos sendo soltos de forma abusiva, perto de hospitais, abrigos, clínicas ou residências, vale registrar o local e o horário e acionar as autoridades competentes. Denunciar não é implicância: é proteger quem não tem voz.
Lembrar de quem não pode pedir
O cachorro encolhido atrás do sofá não vai reclamar na reunião de condomínio, não vai escrever para o jornal nem vai entrar na justiça. A única forma que ele tem de pedir ajuda é tremer, e quem decide ouvir esse pedido somos nós.
Ser mais humano não precisa de grandes discursos. Às vezes é apenas deixar o foguete guardado na gaveta numa noite em que o coração de alguém, de quatro patas ou de duas, bate mais rápido do que deveria.


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