As manias de quem não come "do jeito normal"

Cachorros têm personalidade, e a relação com a comida é um dos lugares onde ela mais aparece. Algumas manias muito comuns:

  • Pegar a ração e comer em outro lugar. Muitos cães levam um punhado da vasilha para o tapete, o sofá ou o quintal. É um resquício do instinto ancestral de levar o alimento para um local seguro.
  • Só comer se o dono estiver por perto. Alguns cães ignoram a vasilha até alguém sentar ao lado ou conversar com eles.
  • Comer devagar e parar para olhar o dono. É uma forma de checar se ele ainda está ali.
  • Esperar ser chamado, mimado ou "convencido". Quando o tutor já cedeu algumas vezes (colocando um petisco por cima, pondo a ração na mão), o cão aprende que fazer drama rende recompensa.
  • Rosnar ao ver o dono se aproximar. É o ponto central deste artigo e merece atenção especial.

Por que o cachorro rosna na hora de comer?

O rosnado é comunicação, não "maldade". O cão está dizendo algo, e o nosso trabalho é descobrir o quê. Na hora da refeição, existem basicamente três explicações principais.

1. Proteção de recurso

É o que os especialistas em comportamento chamam de resource guarding. O cão considera a comida valiosa e quer garantir que ninguém a leve. Os sinais costumam incluir enrijecer o corpo, ficar com a cabeça baixa sobre a vasilha, olhar de canto, comer mais rápido, mostrar os dentes e rosnar quando alguém se aproxima. Esse comportamento é bem mais comum do que se imagina e não indica que o cão é "dominante" ou "mal-educado". Muitas vezes vem de insegurança: o cachorro teme perder o que é importante para ele.

2. Rosnar para chamar a atenção

É a hipótese que muitos tutores levantam, e ela pode ser verdadeira. Se em algum momento o cachorro rosnou e o dono reagiu (chamando a atenção, conversando, oferecendo algo, dando bronca, ou mesmo se afastando), o cão pode ter aprendido que o rosnado funciona. Para um cachorro, atenção negativa também é atenção. Se ele aprendeu que rosnar faz o dono vir, falar com ele ou ficar por perto, vai repetir.

Nesse caso, o rosnado geralmente aparece mesmo quando não há ameaça real: o dono está longe, o cão está relaxado, a cauda balança. Parece mais um "ei, olha pra mim!" do que um aviso de perigo.

3. Dor, desconforto ou problema de saúde

Esta é a explicação que muita gente esquece. Um cachorro que de repente passa a rosnar na hora de comer pode estar com dor de dente, gengivite, desconforto abdominal ou algum outro problema. Se o comportamento é novo, ou mudou de forma brusca, a primeira parada deve ser o veterinário. Só depois de descartar causas físicas faz sentido trabalhar o lado comportamental.

Como saber se é manha ou proteção de recurso?

Observe o contexto e a linguagem corporal:

Mais provável que seja busca de atenção quando:

  • o corpo está solto e relaxado;
  • a cauda está solta ou balançando;
  • o cão olha para você enquanto rosna;
  • o rosnado acontece mesmo sem ninguém perto da vasilha;
  • ele para de rosnar assim que consegue o que quer.

Mais provável que seja proteção de recurso quando:

  • o corpo fica rígido, parado ou "congelado";
  • ele abaixa a cabeça sobre a comida e tensiona o focinho;
  • o rosnado só aparece quando alguém se aproxima da vasilha;
  • vem acompanhado de mostrar dentes, olhar de lado ou comer apressadamente.

Na dúvida, trate como proteção de recurso: é mais seguro. E, se houver crianças em casa, nunca deixe que se aproximem de um cão que rosna durante as refeições.

O que NÃO fazer

Não puna o rosnado. Dar bronca, gritar ou ameaçar o cão por rosnar pode parecer eficaz no momento, mas o resultado costuma ser ruim. Você ensina o cachorro a esconder o aviso, e um cão que não rosna mais mas continua desconfortável pode passar direto para a mordida.

Não tire a comida na marra. Retirar a vasilha à força para "mostrar quem manda" confirma o medo do cão de perder o alimento e piora a proteção de recurso.

Não ceda ao rosnado. Se o objetivo dele é atenção, atendê-lo toda vez que rosna reforça o comportamento.

Não use métodos antiquados de "dominância". A ideia de que o dono precisa ser o "alfa" já foi bastante questionada por comportamentalistas modernos. Uma relação baseada em confiança funciona melhor do que uma baseada em medo.

O que fazer na prática

Faça uma consulta veterinária

Descarte dor e problemas de saúde primeiro. Se possível, procure também um veterinário comportamentalista ou um adestrador que trabalhe com reforço positivo, principalmente se o rosnado vier acompanhado de tentativa de mordida.

Crie uma rotina previsível

Horários fixos de refeição, o mesmo lugar e a mesma vasilha reduzem a ansiedade. Cães que sabem o que esperar tendem a ficar mais tranquilos.

Alimente o cão em um espaço tranquilo

Evite deixar a vasilha em corredores ou perto do movimento da casa. Um canto sossegado ajuda o cão a comer sem sentir que precisa vigiar tudo.

Ensine que sua aproximação é algo bom

Uma técnica muito usada por adestradores consiste em se aproximar da vasilha, jogar um petisco de maior valor (pedacinho de frango, por exemplo) perto do cão e se afastar. Com o tempo, ele passa a associar sua chegada com coisas boas, e não com perda. Faça isso a uma distância em que o cão ainda não rosna e avance aos poucos.

Não reforce o rosnado de atenção

Se você concluiu que o rosnado é busca de atenção e não há sinal de tensão, tente não reagir no momento do rosnado: não olhe, não fale, não afague. Em vez disso, recompense o comportamento calmo. Quando ele comer tranquilo ou vier até você de forma serena, aí sim dê atenção, elogio e carinho. Ele aprende que a calma rende mais do que o ruído.

Ofereça atenção em outros momentos

Muitos cães rosnam para chamar atenção porque estão carentes ou entediados. Passeios, brincadeiras, jogos de farejar e tempo de qualidade ao longo do dia diminuem a necessidade de "criar drama" na hora da comida.

Use brinquedos de alimentação

Comedouros lentos, tapetes de farejar e brinquedos recheáveis transformam a refeição em atividade e desviam o foco do conflito. Além disso, estimulam a mente do cão.

Cuidado com o excesso de "convencimento"

Se você sempre acrescenta algo à ração para o cachorro aceitar comer, ele pode aprender que fazer manha compensa. Ofereça a refeição, espere uns 15 a 20 minutos e, se ele não comer, retire a vasilha sem drama. Na próxima refeição, tente de novo. Se a recusa se repetir por mais de um dia, volte ao veterinário.

Paciência é a chave

Mudar esse comportamento leva tempo, e não existe solução instantânea. Cada cão tem sua história, e o que funciona para um pode não funcionar para outro. Seja constante, evite brigas e comemore os pequenos avanços: um dia sem rosnar, uma refeição tranquila, uma aproximação sem tensão.